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Mosteiro de São Simão da Junqueira

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INTRODUÇÃO

A edição do “Património” desta semana é sobre o Mosteiro de S. Simão da Junqueira, na Arquidiocese de Braga. (…)Sem surpresas, os investigadores não têm uma data certa da fundação do Mosteiro de S. Simão da Junqueira. Onde não parece haver dúvidas é que foi edificado ainda no século XI, entre os anos 1069 e 1084. Na sua origem estará uma decisão de um conjunto de homens e mulheres que, com muito medo da morte e do Inferno, provavelmente mais do Inferno do que propriamente da morte, resolveu levar uma vida diferente, de maior auteridade e oração. Ou seja, pelo menos inicialmente, não teriam qualquer protector. Foram orientados pelo presbítero D. Aires.

Mais tarde, passaram a seguir a regra de Santo Agostinho e passou a ser uma comunidade exclusivamente masculina. No final do século XVI foi cumprido o contrato estabelecido com D. Sebastião, e S. Simão da Junqueira, mais nove mosteiros, passaram para as mãos da Congregação de Santa Cruz de Coimbra. Os cónegos de S. Simão nunca aceitaram as regras de Santa Cruz e pagaram por isso.

O mosteiro sofreu obras importantes no século XVIII, nomeadamente a ampliação dos dormitórios. Mas acabou por ser extinto em 1770, por breve de Clemente XIV. Actualmente, é flagrante o contraste entre a Igreja, que está airosa, cuidada e luminosa; e o mosteiro, propriedade particular, em ruína total. Para quem gosta de património, dói ver azulejos dos séculos XVII e XVIII a cair e a morrer, enterrando mais um versículo da nossa História. 

 

MOSTEIRO DA JUNQUEIRA FOI FUNDADO NO SÉCULO XI

O Mosteiro de São Simão da Junqueira foi fundado no século XI, acreditando-se, pela documentação já descoberta, que terá sido no ano de 1069, ou seja, muito antes da nacionalidade.

A fazer fé na documentação de que dispomos, corria o longínquo ano Dezembro de 1069 quando um conjunto de homens e de mulheres decidiu reunir as suas vidas e os seus haveres materiais numa comunidade de carácter religioso, sob a orientação de Aires, um presbítero que tomou a seu cargo os destinos desse grupo humano atormentado pelo medo da morte e do Inferno

, afirma SÉRGIO LIRA num artigo intitulado “O Mosteiro de São Simão da Junqueira de Vila do Conde”, publicado nas Actas do 2.º Encontro de História de Vila do Conde – 1050 anos de história, a memória dos séculos monásticos. Aliás, sobre a fundação deste mosteiro, vários historiadores avançaram com hipóteses diferentes. O investigador lembra no seu livro O Mosteiro de São Simão da Junqueira (dos primóridos a 1300) que FREI NOCOLAU DE SANTA MARIA, na sua Crónica dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho considera que este cenóbio terá sido fundado em 1072, depois de D. Aires ter visitado o mosteiro por ordem de D. Pedro e, por o encontrar destruído pelos mouros, o decidiu reconstruir.

Outra hipótese mais cautelosa é avançada pelo MONSENHOR JOSÉ AUGUSTO FERREIRAS no seu trabalho A Igreja e o Estado nos quatro primeiros séculos – Santo Agostinho e o Mosteiro da Junqueira. Para este historiador, o primeiro documento que refere inequivocamente o Mosteiro de S. Simão da Junqueira data de 1084.

Este documento, que contém a mais antiga referência ao dito mosteiro, é uma doacção feita por Sugerio Rauco aos seus dois filhos Mendo Soares e Aldora Soares

, afirma. Contudo, para SÉRGIO LIRA

a primeira referência explícita e irrefutável ao mosteiro de S. Simão surge num documento infelizmente muito danificado e de muito difícil datação mercê do seu mau estado de conservação.

Trata-se de uma doacção ao Locum Sactorum Simonis et Juda apostolorum, provavelmente de 1069.

No verso deste pergaminho encontra-se outro acto, em que um conjunto de indivíduos se congrega, com intenções de vida religiosa. Nenhum nome é atribuído a esta congregação, mas, se reunirmos as informações do primeiro documento com as do segundo, poderemos admitir estar perante a doacção de raiz correspondente à fundação de uma casa de vida religiosa, sob a orientação de “…árias abas et previster” e que contava com a presença de religiosos e de laicos

, salienta. Ainda segundo o investigador, é de admitir a fundação de uma casa de vida religiosa com membros de ambos os sexos dirigida por um abade.

A adopção da regra de S. Agostinho

Após a fundação, há duas questões que se podem colocar. Quando é que esta comunidade passou a ser exclusivamente masculina e quando terá adoptado a regra de S. Agostinho. Para SÉRGIO LIRA, numa primeira fase do Mosteiro de S. Simão da Junqueira não deverá ter havido uma regra ou, pelo menos, não há documento histórico conhecido que a refira para esta comunidade. No entanto, salienta, é de admitir que esta comunidade se terá

guiado em função da orientação do presbítero, Aires, que assumiu de início o papel de dirigente. Pura especulação é assumir que uma regra das que ao tempo estavam em uso em congregações similares terá sido empregue para reger os destinos de S. Simão, mas, de qualquer forma, uma especulação aceitável e até plausível

, defende. Por outro lado, SÉRGIO LIRA, de todos os documentos que analisou, afirma não ter encontrado qualquer passagem onde seja mencionado explicitamente o momento em que foi adoptada a regra de S. Agostinho. Segundo afirma,

não temos notícia documental acerca da assumpção de uma regra até ao ano de 1151, quando num documento em que os patronos do mosteiro reparam abusos cometidos, se faz menção explícita da regra que entretanto havia sido adoptada: o mosteiro de S. Simão seguia as lições de Santo Agostinho. As expressões do dito documento são claras: refere-se um presbítero et canónico, mencionam-se suis canonicis regulariter e afirma-se, sem margem para dúvidas quer paleográficas que de interpretação in norma Sacti Augustini preserverantibus

, acrescenta. No que diz respeito à comunidade, sabe-se que num primeiro momento ela era mista, uma vez que existem referências a fratres et sorores. Um pouco mais tarde, o mencionar-se uma victa sancta leva SÉRGIO LIRA a pensar que terá sido assumida uma separação.

Certamente após a adopção da observância de Santo Agostinho, já a comunidade seria exclusivamente masculina; eventualmente sê-lo-ia já em época anterior, mas mais uma vez faltam-nos provas documentais

, salienta o investigador.

 

AS DOACÇÕES ENRIQUECERAM O MOSTEIRO DE S. SIMÃO

O património do Mosteiro de S. Simão da Junqueira foi sendo enriquecido ao longo dos primeiros séculos muito graças às doações de particulares, que deixavam as suas terras aos monges através, por exemplo, de testamento. No entanto, na sua comunicação “O Mosteiro de S. Simão da Junqueira de Vila do Conde”, inserida nas Actas do 2º Encontro de História de Vila do Conde – 1050 anos de história, a memória dos séculos monásticos, SÉRGIO LIRA realça que esta casa monástica, tal como as restantes, também viveu em estreita ligação com famílias terratenentes que a ajudaram.

S. Simão conheceu o apoio de pelo menos duas famílias patronais, eventualmente ligadas, mas sem que possamos ter encontrado na documentação sinal evidente dessa ligação. Uma ostenta a alcunha ou patronímico Raoco ou Ranoco, a outra foi a família de Cunha, sobejamente conhecida de linhagística coeva

, afirma. Entretanto, a verdade é que os

responsáveis pelo mosteiro foram ao longo dos tempos cuidando para que a propriedade agrícola se enriquecesse, fosse bem gerida, aumentada em área e em qualidade

, sustenta. Segundo o investigador, uma grande parte da propriedade deste mosteiro foi recebida através de doações, embora tenha havido compras e escambos..

Através de testamentos ou de doações pro anima muitos proprietários alodiais entregueram terras a S. Simão, solicitando em troca que fossem rezadas missas nos seus aniversários de falecimento. Essa forma uma forma constante de enriquecimento da propriedade fundiária de S. Simão, a que se juntaram as doações post mortem e reservato usufructo

, sustenta SÉRGIO LIRA. Já no século XV, diz-nos JOSÉ MARQUES, no seu trabalho A Arquidiocese de Braga no século XV, que o Mosteiro de S. Simão da Junqueira vivia momentos difíceis, tendo sido necessário anexar-lhe S. Cristóvão de Rates, em Rates.

Se era certo que a igreja do antigo Mosteiro agostinho de S. Cristóvão de Rates, mercê das frequentes pestes e guerras, estava profundamente carecida de rendas, o mesmo acontecia em S. Simão da Junqueira, “o quall esso meesmo por a dicta razom he minguado de rendas que ja ouve

, afirma o historiador. Ainda segundo JOSÉ MARQUES, com esta anexação, concretizada a 26 de Novembro de 1443, tanto S. Simão da Junqueira como S. Cristóvão colheriam benefícios.

A anexada teria melhor assistência religiosa e o mosteiro veria aumentados os seus rendimentos “de guisa que o serviço de Deus nom seja em elles minguado e em spiciall porque ao presente em elle ha tres ou quatro coonigos regulares e nosso desejo he seer o dicto moesteiro conportado e ajudado que convento em elle nom faleça

, acrescenta o investigador citando D. Fernando da Guerra, Arcebispo de Braga.

Os abades comendatários

No final do século XV e princípio do século XVI, os mosteiros viram ser introduzida uma nova figura na sua gestão, tratando-se dos abades ou priores comendatários. E, o Mosteiro de S. Simão da Junqueira não fugiu à regra. Segundo o Monsenhor JOSÉ AUGUSTO FERREIRA no seu livro A Igreja e o Estado nos quatro primeiros séculos – Santo Agostinho e o Mosteiro da Junqueira, estes abades comendatários até seriam toleráveis

se fossem indivíduos da mesma profissão e exercessem o seu cargo por tempo limitado

, contudo,

não foi assim. Os comendatérios eram vitalícios, e não só clérigos seculares, mas ainda fidalgos inteiramente leigos, daí a ruína do património dos conventos e a relaxação na observância regular e do espírito monástico

, acrescenta. Assim, segundo o investigador, em 1516 o primeiro abade comendatário do Mosteiro de S. Simão da Junqueira foi D. Diogo Pinheiro, Dom Prior de Guimarães, Bispo do Fundão e prelado de Tomar. Em 1525 sucedeu-lhe o seu filho, Pêro Gomes Pinheiro, fidalgo da casa real e capelão do Cardeal Infante D. Henrique. Ainda segundo o Monsenhor JOSÉ AUGUSTO FERREIRA,

em 1532 foi nomeado comendatário D. Miguel da Silva, bispo de Viseu, que renunciou, sendo por isso nomeado em 1534 Rodrigo Gomes Pinheiro, depois bispo do Porto, que igualmente renunciou, daí a nomeação de Martim Pinheiro, abade de Touguinhó, neto de D. Diogo Pinheiro, para o lugar de comendatário em 1555, cvargo que exerceu até 1589 data da sua morte.

Entretanto, a 15 de Janeiro de 1578, D. Sebastião deu em forma de contrato dez mosteiros à Congregação de Santa Cruz de Coimbra, uma doação que se tornava efectiva com a morte de último comendatário. Assim, a 13 de Junho de 1593, a Congregação de Santa Cruz fez a aceitação dos mosteiros e, a 17 de Fevereiro de 1595, “no Mosteiro de S. Simão da Junqueira compareceu o padre D. Christóvão de Christo, prior do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e Geral da Congregação dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, acompanhado dos visitadores D. André dos Anjos e D. Rafael da Piedade“, para tomarem posse do mosteiro.

 

SÉCULOS XVII E XVIII FORAM DE HUMILHAÇÃO, GLÓRIA E EXTINÇÃO

O Mosteiro de S. Simão da Junqueira nunca teve vida fácil, mesmo quando aparentou prosperidade. Com algum humor se pode aplicar aqui a filosofia popular , segundo a qual “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Não nos podemos esquecer que na origem da sua criação estaria o medo da morte e do Inferno. No entanto, sabemos que muitos mosteiros, edificados com todos os fundamentos cristãos e sob a orientação de um orago santificado, também acabaram atolados em problemas, muitas vezes criados pelos próprios, pela ganância. Pode dizer-se que, entre os século XVII e XVIII, aconteceu um pouco de tudo no mosteiro: humilhação, alienação, união, alguma glória e, por fim, a extinção, através de breve papal de 1770.

Já vimos que, no final do século XVI, o convento foi integrado na congregação de Santa Cruz de Coimbra, contra a vontade dos cónegos de S. Simão. No início do século seguinte, em mais uma reforma, Santa Cruz de Coimbra decidiu extinguir ou unir alguns dos muitos mosteiros que estavam sob a sua alçada desde 1578, no âmbito do contrato com D. Sebastião. Foram, sem dúvida, tempos de humilhação para os cónegos de S. Simão, que não aceitaram pacificamente a integração. Assim, a partir de 1612, o mosteiro ficou unido ao de Moreira da Maia, no Porto. 12 anos depois, foi unido, juntamente com outros, ao Mosteiro Novo de S. Teotónio de Viana, entretanto suprimido antes dfo da Junqueira. Não será por acaso que na Igreja existe um altar de S. Teotónio.

No final do século XVII já trouxe bons ventos ao mosteiro de S. Simão, particularmente à igreja. As informações sobre o templo anterior são escassas.

Nos fins do século XVII, reinado de D. Pedro II, fez-se com grande sumptuosidade a construção de um templo da Junqueira, dedicado a S. Simão e S. Judas, em forma de cruz latina, de magnífica silharia de pedra, duas torres na fachada, d´uma só nave coberta de uma abobada de berço em toda a sua extensão

, escreve o Monsenhor JOSÉ AUGUSTO FERREIRA,  na publicação A Igreja e o Estado – Santo Agostinho e o Mosteiro da Junqueira. Sobre o templo propriamente dito, falaremos na página seguinte [texto abaixo]. Mas a construção de uma nova igreja foi, sem dúvida, um dos momentos de glória deste cenóbio. Recorde-se que nessa altura, o mosteiro tinha recuperado a sua autonomia, o que permitia aos cónegos de S. Simão tomar decisões importantes para a sua congregação. Assim, outro momento de glória foi a construção ou alargamento do dormitório, em 1748, o que significa que foram recrutados novos frades.

Breve de Clemente XIV pôs fim ao mosteiro

Monsenhor MANUEL AMORIM, saudoso investigador da história local da Póvoa de Varzim, numa participação no Boletim Cultural do Ginásio Clube de Vila do Conde, dá conta desse período de properidade da Junqueira. Num artigo intitulado As últimas obras do mosteiro de S. Simão da Junqueira, o historiador fala de um mosteiro mais povoado de religiosos,

em virtude das obras de reconstrução e ampliação dos dormitórios os quais deviam ficar prontos pelo S. Miguel de 1748.

Monsenhor MANUEL AMORIM descreve alguns pormenores do contrato assinado pelos mestres pedreiros. O preço acordado foi de 480 mil réis

pelo prazo de seis meses, a acrescentar mais 123 palmos às duas paredes do dormitório de tal modo que ele ficasse com mais quatro celas.

O documento revela-nos outras intervenções importantes nesta data: desde janelas e portas, alguns elementos decorativos, pias nos lavatórios, entre outras.

O acréscimo novo será emtabullado com hua cornija como a que guarnece o dormitório velho

, lê-se. Obras que dão ideia de uma período florescente. Puro engano, a 4 de Julho de 1770, por Breve do Papa Clemente XIV, antigo Frei Lourenço, apenas 22 anos depois, o mosteiro da Junqueira foi extinto, juntamente com mais nove da Congregação de Santa Cruz de Coimbra. Todos os documentos disponíveis dizem-nos que os bens

móveis e imóveis

, foram destinados ao Convento de Mafra, com autorização do rei D. José. Alguns historiadores dizem que os bens foram incorporados no convento, outros alegam que os cenóbios extintos, com bens incluídos, foram vendidos e o produto das vendas serviu para ajudar nas obras do Convento de Mafra. Desde essa altura, o mosteiro de S. Simão está em mãos privadas, definhando e morrendo de solidão e abandono.

 

IGREJA DA JUNQUEIRA APRESENTA INFLUÊNCIA ITALIANA VIA LISBOA

A Igreja conventual de S. Simão e S. Judas Tadeu, na Junqueira, é muito elogiada pela sua “excelente qualidade construtiva”, pela sua grandiosidade e decoração e pela sua imaginária. Há especialistas que vêem neste templo muita influência italiana, via Lisboa, nomeadamente nos marmoreados de várias cores, nos altares, mormente na tribuna do altar-mor. Não há data certa do início da edificação desta

bela igreja

, como a ela se refere monsenhor AMORIM. No entanto, tudo aponta para que tenha sido depois de 1687, época em que o convento tinha recuperado a sua autonomia. Quanto à conclusão das obras, também não há certezas. No entanto,

pelo grande aparato da sua fábrica, teriam de ser necessariamente morosas.

O historiador refere, no artigo publicado no Boletim Cultural do Ginásio Clube Vilacondense, que só em 21 de Fevereiro de 1754 foi deliberado, em Capítulo da comunidade, fazer o retábulo do altar-mor. Obra feita com dinheiro vivo, depois da venda da Quinta da Espinheira. Em relação ao estilo, o monsenhor JOSÉ AUGUSTO FERREIRA classifica-a de

Jesuítico decadente.

DEOLINDA CARNEIRO, directora do Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, fala com entusiasmo e emoção da Igreja de S. Simão da Junqueira, especialmente do seu interior, a começar pela tribuna do altar-mor, bastante singular nesta região.

A igreja em si é excepcional porque é de uma qualidade tanto a nível geral como nos pormenores e na concepção. É uma igreja de cruz latina. Todo o trabalho do coro alto, em arco abatido. É uma estrutura complexa, toda em pedra, e revela um desenho de grande erudição. É bastante fora do vulgar nesta região

, analisa. A especialista em arte sacra diz que os retábulos na nave, são muito ricos e interessantes preponderantemente de estilo joanino.

Destaca-se o aspecto teatral, as cortinas e uma grande qualidade, também a nível das imagens.

No transepto, em particular na capela-mor, há outro conjunto muito bem conseguido. O retábulo do Santíssimo imita um mármore vermelho, o que dá muito bem a ideia de ser dedicado ao Santíssimo. Realce ainda para a belíssima pintura que representa a eucarístia. A qualidade vê-se também nos altares colaterais, igualmente com marmoreados em diferentes cores.

O remate da capela-mor é o mais evoluído de todas as peças. Faz-nos lembrar a talha de Lisboa. Aliás, o que vemos aqui faz-nos lembrar mais a talha de Lisboa do que a talha da região. Há algo mais classicizante. Acredito que terá alguma influência do célebre retábulo de S. João Baptista, que veio de Roma, feito no tempo de D. João V, ele que, infelizmente, não chegou a vê-la montada na igreja de S. Roque, em Lisboa

, afirma DEOLINDA CARNEIRO.

Marmoreados coloridos e diversificados

Recorde-se que a Capela de S. João Baptista é considerada uma obra prima da arte europeia. Nela são utilizados materiais preciosos como bronzes dourados e mármores de diversas espécies: lápis-lazuli, ágata, verde antigo, alabastro, ametista, diásporo, jade, entre outros.

Acho que foi inspirado nesse princípio, um desenho um pouco mais simples, porque não podemos chamar a este desenho simples. Mas nota-se uma base clássica, romana. Vê-se isso também nas fortes colunas, com belíssimos capitéis, muito bem desenhados, mas tudo com tons de marmoreado, que nos revela já este gosto

, explicou. DEOLINDA CARNEIRO vê o estilo também nos querubins; em vez de serem coloridos como é hábito nesta zona,

temos querubins branquinhos, exactamente porque tentam imitar o jaspe. Os relevos dos querubins são em branco e o dourado em madeira dourada, também faz lembrar o latão dourado. É realmente um trabalho ímpar, completamente diferente

, classifica. A especialista em arte sacra recorda que o marmoreado, só se difunde verdadeiramente a partir dos meados do século XVIII. É certo que já aparece nas decorações rococó, mas a talha pombalina, após o Terramoto de Lisboa de 1755, veio democratizar essa prática.

Com bons desenhos, mais simples e por isso mais baratos. E, em vez de ser um materiais ricos, são feitos em madeira policromada.

DEOLINDA CARNEIRO elogio o conjunto de azulejos da capela-mor, representando a vida de Cristo. Destaque para alguns painéis de Pedro a caminhar sobre as águas, ao encontro de Cristo, depois da ressurreição.

 

IMAGINÁRIA RICA E VALIOSA DA IGREJA REFLECTE ORAGOS DE DIFERENTES ÉPOCAS

A par da qualidade arquitectónica, outro aspecto que caracteriza a igreja é a qualidade e valia da sua imaginária. Um olhar mais atento permite-nos constatar que as imagens reflectem os diferentes oragos e padroeiros que têm passado pelo mosteiro ao longo dos séculos. De facto, além do orago original, S. Simão, também Santo Agostinho, através dos Cónegos Regrantes; São Teotónio, uma vez que pertenceu a S. Teotónio de Viana do Castelo; S. Judas Tadeu, orago assumido na construção da actual igreja, no final do século XVII; entre outros. Muitas das imagens,

óptimas esculturas barrocas

apresentam características muito particulares, um pouco fora da tradição imaginária do Norte. Aliás, segundo DEOLINDA CARNEIRO, muitas das esculturas aproximam-se mais de imagens feitas em Lisboa. O que de certa forma corrobora com a ideia da influência lisboeta na decoração. Uma das curiosidades de muitas imagens desta igreja tem que ver com as vestesn ou a mudanças de nome. Por exemplo, Santo António aparece com a veste castanha, típica dos franciscanos. No entanto, uma observação mais atenta permite-nos ver que, à excepção da cor, trata-se de uma veste coral dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Afinal, o mosteiro esteve muito tempo sob a dominação  da regra agostiniana. Só se mudou para a Ordem de S. Francisco de Assism quando chegaram os mártires franciscanos de Marrocos. Nessa altura estava em Coimbra e decide-se tornar-se franciscano. Mas quase todas as Igrejas ligadas à devoção a Santo António lembram a fase da vida em que pertencia aos agostianos.

O que se passou na igreja de S. Simão da Junqueira aconteceu em muitos outros templos; isto é, pintaram as vestes de castanho para recordar que foi um frade franciscano

, esclarece DEOLINDA CARNEIRO. Outra situação parecida contece com a imagem de S. Judas Tadeu. Na verdade, apesar da igreja ser dedicada a S. Simão e S. Judas Tadeu, a devoção a S. Judas não era muito popular, por causa do nome. Confundia-se com Judas Iscariotes. O traidor. Na zona passava um Caminho de Santiago.

Há uma belíssima imagem de S. Tiago. Inteligentemente, não lhe tiraram nenhum dos símbolos. Nem um bordão, nem a vieira. Puseram-lhe simplesmente um serrote e chamaram-lhe S. Simão

, explicou a directora do Museu Municipal da Póvoa de Varzim.

Devoção para remir dos pecados da Guerra Civil

No lado do Evangelho, lado esquerdo, está uma bela imagem no altar da anunciação,. com a Senhora das Graças ou Sagrado Coração de Maria. É uma boa peça, apesar de ser apenas do século XIX. Segundo frei GERALDO COELHO, conceituado historiador, a origem da devoção está na “Arquiconfraria do Santíssimo e Imaculado Coração de Maria”, uma congregação nascida em Paris, na Igreja de Nossa Senhora das Vitórias. No Porto, estabeleceu-se na igreja dos Congregados, em 1845. Um dos impulsionadores foi Alexandre José Almeida Garrett, irmão do poeta e político Almeida Garrett. A Arquiconfraria chegou a ser conotada com os miguelistas, motivando até um atentado na igreja dos Congregados. Mais tarde, acabou por fixar-se na igreja de S. Bento da Vitória, onde foi feita a primeira imagem. A devoção mariana espalhou-se por todo o país. Segundo DEOLINDA CARNEIRO,

em Portugal uma das missões da Arquiconfraria era rezar pela remissão dos pecados cometidos durante a Guerra Civil (1828-1834) e acabar com os ódios que ficaram nas famílias depois da guerra. A devoção foi seguida em muitas igrejas, com as suas imagens. A imagem em S. Simão da Junqueira destaca-se pela sua qualidade. Enquanto em muitas igrejas aparece com um gosto popular, até com semelhanças com algumas senhoras da época, com vestidos espartilhados, esta imagem parece uma estátua romana.

Além do Imaculado Coração de Maria, a imagem também é chamada de Senhora das Graças. A Igreja é do século XVII, mas muitas das imagens serão anteriores, certamente da antiga igreja. S. Tiago, que foi transformado em S. Simão, será um dos casos. Destaque ainda para a imagem do Senhor da Cana Verde, com especial devoção no dia de hoje, Sexta-Feira Santa. Uma imagem excepcional que já esteve em exposições, precisamente pela sua beleza e qualidade. Na sacristía está também o Santo Ovídio. Um sublinhado também para a imagem do Sagrado Coração de Jesus, que também significa Eucaristia, do grande escultor José Thedim.

 

AS ÚLTIMAS GRANDES OBRAS ACONTECERAM EM 1968

A Igreja paroquial de S. Simão e S. Judas Tadeu da Junqueira, isto é, o templo que outrora pertenceu ao Mosteiro de S. Simão da Junqueira, foi alvo de grandes obras em 1968. Na altura, o padre ADÉLIO FERREIRA DA SILVA LOUREIRO tinha acabado de receber esta paróquia, recordando agora, passados 41 anos, o estado em que se encontrava o edifício. Segundo refere, o templo encontrava-se em

péssimas condições

e, por isso, era necessário realizar obras com alguma urgência. O sacerdote lembra que o tecto da igreja paroquial de São Simão e São Judas Tadeu da Junqueira era todo feito em pedra e as paredes estavam a sofrer as consequências daquele pesp brutal. Assim, perante esta situação, os técnicos que foram chamados a avaliar o estado do tecto e das paredes verificaram que o perigo de desabamento era iminente, pelo que havia necessidade de realizar obras com muita urgência e de encerrar o templo ao culto.

Os técnicos disseram-me que isto era um perigo porque podíamos estar aqui na Eucaristia e a abóbada desabar e matar as pessoas

, recorda o padre ADÉLIO FERREIRA DA SILVA LOUREIRO. O pároco da Junqueira salienta que, tendo em conta estes pareceres, não houve solução que encerrar a igreja paroquial e realizar as obras que eram necessárias para tornar o edifício seguro. Enquanto decorressem as obras ficou decidido que a Eucaristia seria celebrada nas capelas que existem pela freguesia. Segundo o sacerdote, as obras tiveram início e

só ficaram as paredes

, tendo a abóbada sido completamente desmontada.

O adro desta igreja esteve duas vezes cheio de pedras

, lembra. Questionado sobre para onde foi toda esta pedra que foi retirada da igreja paroquial de S. Simão e S. Judas Tadeu da Junqueira, o padre ADÉLIO FERREIRA DA SILVA LOUREIRO recorda que ela foi utilizada para se construir um açude no rio Ave, que passa ali perto. Assim, foi construído um novo tecto para o templo, que é aquele que se pode ver hoje. Trata-se de um tecto feito em placa de cimento, tendo-se, no entanto, aproveitado alguns dos arcos em pedra que faziam parte da estrutura primitiva.

Há aqui uma paróquia que construiu uma igreja nova e não gastou mais do que nós

, ou seja,

o que nós fizemos e o dinheiro que aqui gastamos dava para fazer uma igreja nova

, salienta.

População foi generosa

Perante esta idea, é legítimo perguntar se a população da Junqueira conseguiu suportar este encargo sozinha ou se foi precisa a ajuda de alguma entidade oficial. E, a esta pergunta, o pároco responde realçando que tudo foi pago pelo povo.

A população aderiu muito bem a esta obra porque foi numa época em que começou a emigração para a França e as pessoas não estavam habituadas a gastar dinheiro, como estão hoje, e já começavam a ganhar bons salários. Então, elas foram muito generosas e contribuíram sempre para esta obra. Nós nunca ficamos a dever nada a ninguém. Tinhamos sempre dinheiro para pagar aos artistas

, relembra o padre ADÉLIO FERREIRA DA SILVA LOUREIRO. Contudo, a intervenção que se fez acabou por não ficar apenas limitada ao tecto e ao telhado, aproveitando-se o momento para também renovar o soalho da igreja, que já apresentava problemas. Segundo o pároco, o soalho, que tinha sepulturas,

estava muito fraco. Nós levantámos tudo, isto é, tirámos todo o soalho. Nas sepulturas limpámos tudo o que encontrámos e levámos as muitas ossadas que aqui estavam para o cemitério

, acrescenta. Depois, salienta ainda, o chão foi novamente reposto, tendo-se preservado os taburnos em granito, não se perdendo, desta forma, o aspecto original do chão. Nestes últimos anos, as intervenções que se têm realizado centram-se na colocação dos vitrais novos, considerados de muito boa qualidade. Estas peças de arte, que foram feitas no Porto, enriquecem ainda mais o templo, já possuidor de obras de grande valor patrimonial. Na capela-mor, os vitrais têm como tema central a Eucaristia, e, na nave central o tema é o Rosário. Neste momento, o padre ADÉLIO FERREIRA DA SILVA LOUREIRO garante que, olhando para o estado de conservação da igreja, não há nenhuma obra em particular a realizar.

Apenas gostava aqui de colocar uns serafins [anjos tocheiros] porque, segundo dizem as pessoas, havia aqui uns que foram roubados. E, isso, já fizemos”

, afirma.

 

Nota: Trabalho integrante do Suplemento “Património” do Diário do Minho, da autoria dos jornalistas José Carlos Ferreira e Francisco de Assis. Publicado a 10 de Abril de 2009. 

2 Responses

  1. Sertório Azedas diz:

    Sobre o descaminho de estatuária, azulejos e elementos arquitectónicos de edifícios históricos nacionais, recomenda-se a consulta ao site americano da actividade comercial do, até á pouco tempo, presidente da Associação Portuguesa de Antiquários, onde se pode observar um inacreditável catálogo de peças desses géneros, actualmente á venda nos E.U.A. (e só do estabelecimento de Palm Beach pois as peças mais valiosas estão expostras em Manhattan).

    http://www.solarantiquetiles.com/

    Não obstante não duvidar da licitude desta actividade, que não ponho em causa, é pertinente interrogarmo-nos sobre quantas destas exportações definitivas de património histórico-artístico com mais de cem anos, é que foram solicitadas, e autorizadas pelos serviços competentes do Ministério da Cultura ?

    Antiquário que até presta serviços de consutadoria á PJ no programa “SOS Azulejo” (?).

    http://mais.uol.com.br/view/7945qmbpogar/tradicionais-azulejos-de-lisboa-sao-cada-vez-mais-roubados-0402306ECC916326?types=A&

    Peças que há cerca de duas décadas são sistematicamente furtadas em Portugal por catálogo e por encomenda, por elementos de uma organização criminosa internacional, constituida por bandos de gatunos operacionais, de etnia cigana, e seus associados italianos e dos Países Baixos, que os organizam e distribuiem a mercadoria ilícita pelo mercado mundial. Indivíduos sobejamente conhecidos das autoridades judiciais nacionais, e internacionais, e que estranhamente não são eficazmente combatidos. Sendo classificados de um “grupo de ladrões ainda não identificado” !

    http://sic.aeiou.pt/online/video/informacao/Reportagem+Especial/2009/1/sospatrimonio.htm

    Faz-se entretanto pesquisa na net, designadamente na Ebay, para alegadamente cumprir e explicar o desempenho de funções, onde se detectam azulejos avulso, produto da pequena delinquência, e “esquece-se” o impune “comércio a grosso” das obras de arte valiosas.

    http://video.msn.com/video.aspx?mkt=pt-br&vid=6f951fda-f648-4302-a426-462c531a269d

    http://mais.uol.com.br/view/1575mnadmj5c/roubo-de-azulejos-em-portugal-ameaca-patrimonio-historico-040262DCC16366?types=A&

    Bustos roubados estão certamente a ter muita procura entre os clientes estrangeiros desta organização criminosa, e designadamente no Alentejo e nas cercanias de Lisboa têm sido furtados vários com características semelhantes e sempre antigos.

    http://alandroalandia.blogspot.com/2008/04/estatuetas-da-fonte-esto-de-regresso.html

    http://riodasmacas.blogspot.com/2009/05/roubo-de-estatuaria-em-colares.html

    http://altodapraca.blogspot.com/2009/05/monumento-nacional-assaltado.html

    http://odistritodeportalegre.com/noticia.php?codigo=241

    Cumprimentos

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